A queda de Nicolás Maduro trouxe um novo nível de incerteza para os interesses de Joesley Batista na Venezuela. O grupo J&F participa, direta ou indiretamente, de uma concessão petrolífera formada a partir de poços expropriados da ConocoPhillips em 2006, durante o governo de Hugo Chávez. A atuação ocorre por meio da Petro Roraima, joint venture com a estatal PDVSA e a A&B Oil and Gas, ligada a Jorge Cardona.
Com a mudança do cenário político em Caracas, as declarações do presidente dos EUA, Donald Trump, ampliaram a pressão. Trump afirmou que os Estados Unidos pretendem “governar” a Venezuela e controlar suas reservas petrolíferas para compensar perdas de petroleiras norte-americanas, sinalizando investimentos bilionários de empresas dos EUA para recuperar a infraestrutura do setor.
Negociações e temores após a queda do regime
Fontes do setor indicam que Joesley e parceiros buscam diálogo com a presidente interina Delcy Rodríguez para preservar contratos diante da possível entrada maciça de companhias americanas. O receio é de prejuízos expressivos caso os poços sejam retomados ou relicitados sob nova orientação política. Oficialmente, a J&F nega operar na Venezuela, embora o mercado local reconheça a presença por meio de empresas associadas.
O ambiente ficou ainda mais tenso após anúncios de liberação de volumes relevantes de petróleo sob gestão do governo interino e acenos de cooperação com Washington, incluindo a libertação de presos políticos. Em reunião na Casa Branca, o CEO da ConocoPhillips, Ryan Lance, informou que a empresa é a maior credora privada da Venezuela, com cerca de US$ 12 bilhões a receber, e defendeu a reconstrução integral do setor — proposta que recebeu sinal verde de Trump.
Lobby, sigilo e influência brasileira
O episódio ocorre enquanto a J&F atua em frentes de lobby nos EUA e mantém diálogo com o Itamaraty. A JBS, braço do grupo, é uma das maiores produtoras de carne nos EUA e participou de eventos ligados à posse de Trump por meio de subsidiária local. Joesley esteve em Caracas em novembro de 2025 para tratar do futuro dos negócios, em meio a pressões internacionais para a saída de Maduro. O Itamaraty, por sua vez, colocou sob sigilo por cinco anos telegramas diplomáticos que mencionam encontros e tratativas envolvendo o grupo Batista e autoridades venezuelanas.
Relações locais e tensões internas
Fontes venezuelanas apontam que Jorge Cardona teria viabilizado os negócios dos Batista com apoio do ministro do Interior Diosdado Cabello, considerado figura-chave do antigo regime e com histórico de proximidade com o empresariado brasileiro. Cabello, porém, mantém divergências com Delcy Rodríguez e passou a ser alvo de alertas dos EUA para colaborar com a transição ou evitar desestabilizações.
Em nota, a J&F reiterou que não controla poços de petróleo na Venezuela. Ainda assim, o novo arranjo geopolítico, a pressão de credores internacionais e a perspectiva de reestruturação do setor mantêm os negócios sob forte incerteza — com riscos relevantes para investidores que atuaram no país durante o período chavista.