Os dados divulgados pelo Banco Central confirmam uma tendência que economistas já vinham apontando: a política fiscal do governo Lula está perdendo tração, disciplina e previsibilidade. O setor público consolidado acumula, de janeiro a outubro de 2025, déficit primário de R$ 46,852 bilhões, um resultado que não apenas frustra expectativas de ajuste, como evidencia fragilidades crescentes na capacidade do governo federal de administrar suas próprias contas.
A decomposição dos números deixa pouco espaço para interpretações otimistas.
Governo central é o epicentro da deterioração fiscal
O déficit do governo federal chegou a R$ 63,382 bilhões, ou 0,60% do PIB, tornando-se o principal vetor do desequilíbrio nacional. Em termos analíticos, isso significa:
- O governo Lula consome sozinho mais que todo o superávit combinado de Estados e municípios;
- Sem Brasília, o setor público estaria no azul, reflexo de boas práticas fiscais locais — um contraste direto com o comportamento expansionista da União.
A disparidade aponta para um fenômeno recorrente em momentos de políticas federais mais gastadoras: o centro deteriora, as pontas compensam. Mas a capacidade de compensação dos entes subnacionais é limitada e já mostra sinais de exaustão.
Desempenho de Estados e municípios revela gestão fiscal mais responsável apesar da União
Os governos estaduais e municipais apresentaram superávit de R$ 23,974 bilhões (0,23% do PIB), com:
- Estados: R$ 17,779 bi
- Municípios: R$ 6,195 bi
Esse desempenho revela duas conclusões importantes:
- Há disciplina fiscal fora do governo federal;
- Os entes subnacionais estão literalmente segurando a âncora fiscal do país, compensando parte do rombo federal.
O contraste evidencia que o problema não é estrutural ao Estado brasileiro — é específico à gestão federal atual.
Estatais no vermelho: reflexo direto da reestatização ideológica
As empresas estatais, excluindo Petrobras e Eletrobras, acumulam déficit de R$ 7,444 bilhões — exatamente o oposto do que se esperava após anos de ajustes e governança reforçada.
Esse retrocesso coincide com:
- A reversão de critérios técnicos nas indicações;
- A flexibilização da Lei das Estatais, promovida e celebrada pelo próprio governo Lula;
- O retorno de práticas político-partidárias nas diretorias.
Analiticamente, isso amplia o risco de:
- pressão sobre o Tesouro, caso estatais dependam de aportes;
- reclassificação como estatais dependentes, jogando suas despesas para dentro do Orçamento;
- propagação do déficit, multiplicando o rombo federal.
É um círculo vicioso clássico de administrações que priorizam controle político em vez de eficiência econômica.
Trajetória fiscal ameaça a própria meta do governo
O governo Lula insiste em perseguir a meta de déficit zero em 2025, mas os números do BC indicam que:
- O déficit consolidado já está em 0,45% do PIB;
- O déficit do governo central sozinho é 0,60% do PIB;
- As estatais agravam o quadro;
- O cenário exige bloqueios significativos de gastos, que o governo evita politicamente.
A análise mostra que o problema não é só conjuntural — é o modelo em si:
- Mais gasto corrente;
- Estatais novamente problemáticas;
- Aumento de despesas com baixa capacidade de reversão;
- Falta de compromisso real com cortes.
Na prática, Lula está forçando a política econômica a trabalhar no limite das regras, confiando em manobras contábeis e deduções extraordinárias, em vez de atacar o cerne da despesa pública.
Consequências de médio prazo: risco crescente de perda de credibilidade
Esse desarranjo fiscal tende a produzir efeitos encadeados:
- Aumento da percepção de risco do Brasil;
- Pressão sobre juros futuros, prejudicando investimento;
- Fragilização da moeda;
- Dependência maior de arrecadação extraordinária e medidas pontuais;
- Menor crescimento potencial, já que a máquina pública volta a drenar recursos para si própria.
Em síntese, o quadro fiscal de 2025 mostra um governo que:
- Promete disciplina, mas entrega expansão;
- Cobra responsabilidade dos Estados, mas ignora a própria;
- Fala em previsibilidade, mas opera à beira do limite das regras.