O rebaixamento da Acadêmicos de Niterói, última colocada na apuração do Carnaval do Rio de Janeiro, ganhou destaque na imprensa internacional. A escola, que homenageou o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) em seu desfile, retorna à Série Ouro após somar 264,6 pontos — 5,4 a menos que a campeã Viradouro, que alcançou 270.
A BBC destacou que o carnaval carioca manteve sua “dança vibrante e cores”, mas observou que a edição deste ano foi marcada por controvérsia política. A emissora mencionou a presença de Lula na Sapucaí e a representação do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) como palhaço em uma alegoria. Segundo a publicação, opositores recorreram à Justiça alegando suposta vantagem eleitoral ao presidente.
A emissora britânica também relatou críticas nas redes sociais a uma ala que retratava uma família tradicional em “lata de conserva”, interpretada por alguns como ironia aos valores cristãos. Apesar das polêmicas, a BBC observou que elementos como leões gigantes, livros dançantes e plumas multicoloridas encantaram o público.
Cobertura de veículos europeus
A France24 noticiou que alas consideradas zombarias a conservadores e à família tradicional geraram críticas, além de mencionar que imagens de Bolsonaro nos ensaios técnicos já haviam causado desconforto. O canal destacou que os jurados, responsáveis por avaliar quesitos como enredo, fantasias, alegorias e coreografia, não se impressionaram com a estreia da escola no Grupo Especial.
A agência EFE deu ênfase à reação do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), que escreveu nas redes sociais: “O próximo rebaixamento vai ser do Lula e do PT”. Já a AFP informou que o desfile foi criticado por satirizar setores conservadores e mencionou acusações de favorecimento político ao presidente, que está no cargo desde 2023 e é pré-candidato à reeleição.
Segundo a AFP, os jurados atribuíram as notas mais baixas à escola nos quesitos “fantasias” (29,0), “alegorias e adereços” (29,1) e “enredo” (29,3), o que resultou no rebaixamento.
Enredo e debate eleitoral
A Acadêmicos de Niterói apresentou o enredo “Do alto do Mulungu surge a esperança: Lula, o operário do Brasil”, narrando a trajetória do presidente desde a infância em Pernambuco até sua projeção internacional. O samba-enredo foi composto por nove autores, entre eles Teresa Cristina, Paulo César Feital e André Diniz.
O desfile ocorreu em ano eleitoral, o que ampliou o debate político. O Tribunal Superior Eleitoral (TSE) rejeitou por unanimidade pedidos para impedir a apresentação sob acusação de propaganda eleitoral antecipada. Os ministros entenderam que a proibição prévia configuraria censura, mas alertaram para possíveis punições caso fosse constatada irregularidade.
Transformar um presidente em exercício em tema de desfile não é comum no carnaval carioca. Há precedentes históricos, como a escola Deixa Falar, que mencionou Getúlio Vargas em 1932, mas casos desse tipo são raros na tradição das escolas de samba do Rio.