A escolha do economista Kevin Warsh ainda precisa passar pelo Senado
O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, anunciou, nesta sexta-feira, 30, o ex-governador do Federal Reserve (Fed) Kevin Warsh para comandar o Banco Central norte-americano. O mandato do atual presidente, Jerome Powell, termina em maio.
“Conheço o Kevin há muito tempo e não tenho dúvida de que ele entrará para a história como um dos grandes presidentes do Fed, talvez o melhor”, escreveu Trump. “Além de tudo, ele é do ‘elenco central’ e nunca vai decepcionar.” A indicação vai passar pelo Senado dos EUA.
O Fed é tradicionalmente visto como uma força estabilizadora dos mercados financeiros globais, em grande parte por sua independência em relação ao governo do país. Trump é um crítico frequente da gestão de Powell à frente da instituição.
Neste mês, o Departamento de Justiça dos EUA abriu uma investigação criminal contra Powell, que classificou a inquérito como um pretexto para pressionar a instituição a definir a política monetária conforme a vontade de Trump. De acordo com a agência Reuters, há a possibilidade de que o atual presidente do Fed opte por permanecer no cargo mesmo diante do fim de seu mandato, a fim de proteger a instituição de captura política.
A nomeação desta sexta-feira encerra um processo de meses, que muitas vezes se assemelhou a uma audição pública. Warsh, o assessor econômico da Casa Branca Kevin Hassett e outros principais candidatos — incluindo o atual diretor do Fed Christopher Waller e o veterano de Wall Street Rick Rieder — apareceram com frequência na televisão para exaltar suas credenciais e expor suas visões sobre a economia e a política do Fed.
Em agosto, Trump nomeou o assessor da Casa Branca Stephen Miran para o Fed, onde ele se tornou um dos principais defensores de cortes agressivos de juros, algo que o presidente dos EUA quer há muito tempo. Trump também tentou demitir a diretora do Fed Lisa Cook, em uma disputa agora no Supremo Tribunal que, se bem-sucedida, marcaria a primeira vez que um presidente demitiria um formulador de política do Fed.
Indicado à presidência do Fed é pesquisador em Stanford
Advogado e pesquisador visitante distinto em economia no Instituto Hoover, da Universidade Stanford, Warsh disse acreditar que Trump está certo ao pressionar o Banco Central por reduções acentuadas das taxas de juros. Ele criticou o Fed por subestimar o potencial de combate à inflação do crescimento da produtividade impulsionado pela inteligência artificial.
Warsh, de 55 anos, também defendeu uma ampla reformulação do Banco Central, com redução do balanço e flexibilização das regulações bancárias. Embora não seja um integrante do círculo interno da Casa Branca, o indicado à presidência do Fed tem sido confidente de Trump e convidado à propriedade do republicano na Flórida.
O economista quase foi nomeado para o cargo no primeiro mandato de Trump, antes de ser preterido por Powell. Desde então, manteve presença pública constante por meio de discursos e artigos nos quais criticou Powell e seus colegas pela gestão do balanço do Fed, das taxas de juros e de outras ações.
Agora, Kevin Warsh será responsável por uma instituição que, segundo ele próprio, deveria reduzir sua presença na economia e mudar a forma como conduz a política monetária. Não está claro como a escolha pode afetar a trajetória dos juros no curto prazo.
Os três cortes de juros do Fed em 2025 levaram o custo de empréstimos de curto prazo para a faixa de 3,50% a 3,75%. Em janeiro, o Fed manteve os juros inalterados e sinalizou uma pausa, ao alegar crescimento mais forte e um mercado de trabalho em estabilização; por ora, os mercados não esperam outro corte até que o próximo presidente esteja no cargo, em junho.
Com experiência em Wall Street — inclusive como sócio no escritório que administra a fortuna do megainvestidor Stanley Druckenmiller — e laços familiares com o grande apoiador de Trump Ron Lauder, Warsh estará sob vigilância para provar sua independência em relação ao presidente.
Como governador do Fed de 2006 a 2011, a familiaridade de Warsh com executivos e investidores de Wall Street o tornou o principal elo com a comunidade financeira para o então presidente do Fed, Ben Bernanke, durante a crise de 2007-2009.
Embora não tenha divergido das compras massivas de títulos usadas por Bernanke para ajudar a economia a sair de uma longa recessão, ele temia que elas alimentassem a inflação e acabou renunciando. As preocupações inflacionárias de Warsh não se confirmaram, mas o grande balanço do Fed — e o papel que ele desempenha na gestão das taxas de juros — permaneceu como motivo de inquietação.
Agora, Warsh argumenta que a redução do grande balanço do Fed permitiria “realocar” o excesso de liquidez nos mercados financeiros para a economia real por meio da redução da taxa básica de juros.