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sábado, 4 abril, 2026
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Guerra no Irã expõe divisões internas do Brics

Por Alexandre Gomes

Brasil, China e Rússia condenam ofensivas dos EUA e Israel ao regime dos aiatolás e divergem da Índia e árabes do grupo

As ofensivas militares dos Estados Unidos e Israel contra o Irã e as retaliações promovidas por Teerã nos últimos dias provocaram reações distintas entre os países do Brics — formado por Brasil, Rússia, China, Índia, África do Sul, Egito, Etiópia, Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos, Irã e Indonésia.

Brasil, China e Rússia condenaram oficialmente a operação iniciada no último sábado, 28. Já Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos e Índia evitaram criticar diretamente a ação militar norte-americana e israelense, mas reprovaram os ataques com mísseis lançados pelo Irã contra bases dos EUA instaladas em países do Golfo.

Segundo um diplomata ouvido pelo portal BBC News Brasil sob anonimato, o governo brasileiro tem consultado integrantes do bloco, mas não há, até o momento, perspectiva de uma posição conjunta.

Brasil repete defesa do Irã no Brics

Em julho, quando o Irã também foi alvo de bombardeios, o Brics divulgou nota consensual sobre o episódio. Desta vez, interlocutores do presidente Luiz Inácio Lula da Silva avaliam que a dimensão da crise e a atual presidência rotativa da Índia dificultam uma manifestação semelhante.

A escalada começou no sábado, com bombardeios norte-americanos e israelenses contra alvos iranianos. Os ataques resultaram na morte do líder supremo do Irã, o aiatolá Ali Khamenei, além de integrantes do alto comando do regime teocrático islâmico.

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, afirmou que o objetivo era eliminar “ameaças iminentes” e impedir a retomada do programa nuclear iraniano. Teerã nega as acusações e sustenta que seu programa tem fins pacíficos.

Em resposta, o país lançou mísseis contra Israel e contra cerca de 14 países árabes aliados dos EUA, incluindo Emirados Árabes Unidos, Arábia Saudita e Kuwait. O conflito se espalhou para Síria e Líbano, de onde o Hezbollah disparou foguetes contra Israel.

O Brasil divulgou duas notas. Na primeira, condenou a ofensiva de EUA e Israel e defendeu a negociação com a ditadura iraniana como “único caminho viável para a paz”. Na segunda, pediu respeito ao direito internacional e declarou solidariedade a países árabes atingidos por Teerã.

Em entrevista à emissora GloboNews, o assessor especial da Presidência para Assuntos Internacionais, Celso Amorim, classificou como “condenável e inaceitável” a morte de um governante em exercício. “Ninguém é juiz do mundo”, afirmou. “Matar um líder de um país, que está em exercício, é condenável e inaceitável. Devemos nos preparar para o pior.”

Rússia e China, que mantêm relações próximas com Teerã, também reprovaram os ataques. O líder russo, Vladimir Putin, chamou a ação de “violação cínica” do Direito internacional. Pequim adotou posição semelhante e reafirmou apoio à “soberania iraniana”.

A Índia, por sua vez, evitou condenar os bombardeios iniciais e pediu contenção. Posteriormente, o primeiro-ministro Narendra Modi criticou os ataques iranianos contra a Arábia Saudita.

Analistas ouvidos pela BBC avaliam que a crise expõe as contradições da expansão do Brics, iniciada em 2023, e evidencia a dificuldade de coordenação entre países com interesses geopolíticos distintos. Para eles, o bloco está longe de operar como uma aliança de segurança coletiva nos moldes da Organização do Tratado do Atlântico Norte.

Outro fator apontado é o impacto da política externa de Donald Trump, considerada imprevisível. Medidas como o aumento de tarifas no ano passado teriam levado países a priorizarem estratégias individuais, o que reduziu o peso do Brics na condução de suas agendas externas.

Até o momento, a ausência de uma posição conjunta sobre a guerra no Irã é vista como sinal das limitações do bloco diante de conflitos que envolvem diretamente seus próprios integrantes.

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