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quarta-feira, 25 março, 2026
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Epstein: universidades norte-americanas entram em crise depois de revelação de sua influência e doações

Por Alexandre Gomes

Esses vínculos, agora expostos em milhões de documentos do Departamento de Justiça, vêm provocando rupturas em centros de ensino de prestígio nos Estados Unidos

Mesmo sem possuir um diploma universitário, Jeffrey Epstein conseguiu estabelecer conexões influentes no meio acadêmico norte-americano, apoiando-se em doações financeiras e encontros com figuras renomadas. Esses vínculos, agora expostos em milhões de documentos do Departamento de Justiça, vêm provocando rupturas em universidades de prestígio nos Estados Unidos, conforme relatou o The Wall Street Journal.

Nesta semana, a repercussão dessas relações levou à saída de nomes de destaque: Richard Axel, vencedor do Nobel e docente da Columbia, deixou o cargo de codiretor do Instituto Mind Brain Behavior; Lawrence Summers, ex-presidente de Harvard, comunicou que encerrará sua carreira docente na instituição ao fim do ano letivo. Axel classificou seu envolvimento com Epstein como “um sério erro de julgamento”. Summers, por sua vez, já havia se afastado das aulas em novembro e declarou estar “profundamente envergonhado”, depois da revelação de e-mails em que pedia conselhos a Epstein sobre como conquistar uma mulher.

Investigação e reações institucionais

No Bard College, a administração contratou um escritório de advocacia para examinar a relação do presidente Leon Botstein com Epstein, depois de e-mails recentes sugerirem proximidade pessoal mesmo depois da condenação de Epstein, em 2008, por crimes ligados à exploração sexual de menores. Botstein afirmou que Epstein “não era um amigo” e que o contato visava “apenas ao propósito exclusivo de solicitar doações para a faculdade”.

Entre os acadêmicos ligados a Epstein estão nomes como Noam Chomsky, linguista do MIT, e o físico Stephen Hawking, além de pesquisadores de áreas como inteligência artificial. Diferente dos grandes investidores que Epstein costumava cortejar, professores ofereciam prestígio intelectual, reforçando a imagem de genialidade de Epstein. Axel, por exemplo, afirmou em 2007 que Epstein tinha “a capacidade de fazer conexões que outras mentes não conseguem fazer”, destacando sua inteligência e perspicácia.

Epstein frequentemente usava símbolos do universo acadêmico, como roupas com a marca de Harvard, além de circular em conferências e organizar encontros científicos, como o evento para físicos nas Ilhas Virgens, em 2006. Documentos do Departamento de Justiça trazem uma lista de cerca de 30 cientistas, com dados parcialmente ocultos.

Filantropia, influência e mensagens polêmicas

Depois de sua condenação, em 2008, Epstein buscou reabilitar sua imagem por meio de filantropia científica, contando com o apoio de alguns acadêmicos. Os documentos do Departamento de Justiça também mostram trocas de mensagens entre Epstein e seus contatos, muitas vezes com comentários que objetifivavam mulheres, especialmente universitárias.

Em dezembro de 2010, o virologista Nathan Wolfe convidou Epstein para um jantar com “algumas estagiárias gostosas do WEF”. Wolfe manteve contato com Epstein até pelo menos 2018, afirmando que buscava financiamento para pesquisas e lamentando o “excesso de intimidade e julgamento ruim” no tom de seus e-mails. Seu vínculo temporário com Stanford terminou recentemente.

Em outra mensagem, de 2011, David Gelernter, professor de Yale, descreveu uma aluna como “uma loira muito pequena e bonita”. Gelernter não respondeu às solicitações de comentários. A filantropia de Epstein se concentrava em instituições que dependiam de doações, muitas vezes destinando valores de dezenas de milhares de dólares a cientistas individuais.

Doações milionárias e consequências para acadêmicos

Segundo relatório de maio de 2020, Harvard recebeu US$ 9,1 milhões em doações de Epstein na década anterior à condenação. A maior parte desse valor, cerca de US$ 6,5 milhões, foi prometida em 2003, durante a presidência de Summers, para criar o Programa de Dinâmica Evolutiva sob o comando de Martin Nowak. Nowak foi afastado administrativamente nesta quarta-feira em meio a uma investigação sobre seus laços com Epstein.

A prática de financiar pesquisadores era comum em áreas em que professores enfrentam dificuldades para captar recursos, como ciências sociais. Robert Trivers, laureado com o Prêmio Crafoord pela Academia Real de Ciências da Suécia em 2007, relatou em e-mail ter recebido dezenas de milhares de dólares de Epstein e elogiou sua “integridade pessoal”. Trivers também declarou publicamente que via as ações de Epstein como “não tão hediondas”, o que gerou críticas. Atualmente, ele pede privacidade por causa de problemas de saúde.

Epstein também ampliou sua rede acadêmica por meio de indicações, como no caso do economista Nouriel Roubini, apresentado por Gino Yu. Em 2018, e-mails mostram quando Yu conecta Roubini e Epstein, sugerindo encontros em Nova York. Roubini afirmou que encontrou Epstein apenas uma vez, por meia hora, e que só ficou sabendo de sua condenação anos depois. Yu não se manifestou.

Favores acadêmicos e influência em admissões

Além do prestígio acadêmico, Epstein buscava facilitar o acesso de filhos de contatos a universidades da Ivy League. Em 2016, e-mails mostram quando Epstein pede a Axel que ajudasse Alice de Rothschild, herdeira de uma família bancária, a ingressar na Columbia. Axel pediu o currículo da candidata, mas informou depois que ela foi rejeitada. Alice de Rothschild cursou biologia na NYU de 2017 a 2022. Um porta-voz da família declarou que suas admissões e rejeições se deram exclusivamente por suas notas, sem influência de Epstein.

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