A crueldade do regime islâmico não se acomoda na narrativa binária de opressor versus oprimido
A resistência do povo iraniano está se mostrando memorável. Desde 28 de dezembro, dezenas de milhares de civis — por vezes, muito mais do que isso — deixam suas casas diariamente para travar uma batalha desigual pelas ruas do Irã. Eles enfrentam, desarmados, forças de segurança iranianas com ordem para matar, além de guerrilheiros de milícias libanesas, iraquianas e afegãs, que entraram no país a convite do regime islâmico para reforçar o poder de fogo.
ONGs iranianas de direitos humanos estabelecidas fora do país estimam que mais de 90 mil pessoas tenham sido mortas até o momento. A contagem reúne civis assassinados durante as manifestações ou executados dentro de prisões e hospitais. O número de presos e feridos ultrapassa a casa das centenas de milhares.
“Os números que acompanhamos desafiam a nossa compreensão: estamos assistindo a um crime contra a humanidade”, resumiu Hillel Neuer, diretor-executivo da ONG UN Watch, na primeira sessão convocada pela ONU para discutir o tema, em 23 de janeiro — mais de três longas semanas após o início do massacre.
Na mesma ocasião, a ativista política iraniana Masih Alinejad, exilada nos Estados Unidos, teve apenas três minutos para se manifestar, a convite da UN Watch. Foi o suficiente para sintetizar o absurdo da situação: “A ONU tornou-se uma piada triste. Quarenta mil iranianos foram mortos enquanto seus assassinos passeiam pelos corredores desta instituição com bolsas Gucci nos ombros”.
_Rare Moment of Truth at UN: Iranian women’s rights activist @AlinejadMasih takes the floor at United Nations @GenevaSummit to blast European politicians who for years failed to call out the regime’s terrorism and gender apartheid, points to victims in the room shot by the regime. _pic.twitter.com/zvgdS2J8Ld
_— Hillel Neuer (@hillelneuer) _February 18, 2026
A reação internacional
A maioria dos países — entre eles o Brasil — foi tímida em seu posicionamento oficial. A nota do Itamaraty limitou-se a expressar preocupação, condolências e a sublinhar que “cabe apenas aos iranianos decidir, de maneira soberana, sobre o futuro de seu país”. A mensagem contrasta com o tom adotado em relação a Israel, repetidamente acusado de genocídio em diferentes fóruns internacionais.
Há aqui um dado difícil de ignorar: em menos de 40 dias, o número de civis iranianos mortos por seu próprio governo já supera o total de palestinos mortos ao longo de dois anos de guerra (calculado em 70 mil, incluindo mortes naturais e por doenças, terroristas e palestinos mortos por mísseis falhos lançados de dentro de Gaza).
Ainda assim, o mundo ocidental permaneceu inerte, depois de apoiar e participaram, por dois anos, das manifestações pró-Hamas e pró-Palestina que reuniram centenas de milhares de pessoas em países como Inglaterra, Estados Unidos, Canadá e Austrália. Pelo Irã, parlamentares não se pronunciaram. As grandes lideranças políticas se calaram. E os milhões que assinaram petições contra Israel também não demonstraram compaixão alguma.
Embora o regime dos aiatolás tenha suspendido a conexão à internet por semanas — o que, por si só, deveria ter provocado indignação global —, é impossível atribuir essa omissão à falta de imagens ou relatos da opressão. O que ocorre no Irã está documentado. As imagens circulam. Os testemunhos existem. Trata-se, possivelmente, do massacre mais brutal do século 21 — e ele acontece à vista de todos.
O custo ideológico
Uma das explicações para essa indiferença revela um traço perturbador daquilo que se transveste como um movimento de defesa dos direitos humanos. “Algumas causas têm um custo ideológico, e é ele que determina qual luta será encampada pela massa solidária”, opina Dov Maimon, professor da Universidade Ben Gurion, em Israel, e ph.D. em estudos medievais e islâmicos pela Universidade Sorbonne, na França. Em outras palavras, embora muitos pelo mundo simpatizem genuinamente com a causa iraniana, demonstrar apoio público tem um preço que não estão dispostos a pagar.
A omissão não se restringe às ruas. Políticos, instituições e universidades seguem observando o sofrimento iraniano a distância, em silêncio. O mesmo vale para grande parte da imprensa internacional. Depois de dois anos de campanha intensa contra o que chamou de genocídio palestino, grandes veículos mostram-se agora amplamente insensíveis aos apelos vindos das ruas do Irã.
Dominada pela ideologia woke, a mídia se viu diante de uma verdade incômoda. “Um povo que se levanta contra a tirania islamista não se encaixa em sua narrativa binária de opressor versus oprimido — e, por isso, precisa ser ignorado”, resume Einat Wilf, coautora do livro A Guerra do Retorno. “O universo woke não pode admitir que um regime antiocidental seja violentamente repressivo, nem que Israel e os Estados Unidos possam estar alinhados com forças que representam justiça e liberdade.”
O apagamento do massacre iraniano deixa claro, por fim, que os protestos pró-Palestina jamais tiveram como objetivo central reduzir o sofrimento em Gaza. Seu propósito foi outro: isolar Israel e atacar seu aliado, os EUA. Justamente os dois países que hoje se apresentam como os únicos a apoiar, sem hesitação, o povo iraniano em sua luta pela liberdade.