Apuração envolve empresa registrada na Bahia, repasses a site italiano e atuação de rede sob investigação da Promotoria
Uma investigação da operação Domino, que desmantelou, no sábado 27, uma rede acusada de financiar o Hamas na Itália, apura a atuação da jornalista Angela Lano. Segundo apuração do site Infobae, Lano abriu em seu nome, em 27 de fevereiro de 2023, uma empresa chamada Infopal. A sede fica em Salvador, na Bahia.
Dados públicos da Receita Federal indicam que a empresa brasileira encerrou as atividades em 6 de novembro de 2023. Na Itália, Lano é diretora editorial do site Infopal (infopal.it), investigado pela Promotoria. De acordo com os magistrados, o portal recebeu 300 mil euros de uma empresa ligada ao principal acusado, Mohammad Hannoun.
A empresa brasileira Infopal tem registro sob o código 5812, que identifica atividades de publicação de jornais ou sites. Existe um site com domínio brasileiro chamado Infopal, com copyright de 2025. Os artigos, porém, estão em italiano, com exceção dos publicados a partir de outubro do ano passado.
“O amplo arquivo do banco de dados do InfoPal.it, de 2006 até 26 de outubro de 2025, está disponível em italiano, com possibilidade de tradução automática para o português”, informa o site. “A partir de 27 de outubro, as traduções e publicações em português brasileiro serão feitas por tradutores humanos.”
Angela Lano, de 62 anos, é jornalista e orientalista. No passado, atuou como ativista contra a construção da linha de trem de alta velocidade no Piemonte. Ela é alvo de investigação por cumplicidade e participação em associação com fins terroristas. Para as autoridades italianas, Lano seria responsável pela propaganda do Hamas no país, mantendo contato quase diário com Mohammad Hannoun.
Vínculos de Lano com o Hamas
Segundo o jornal italiano La Stampa, a polícia “apreendeu dinheiro em espécie, alguns dispositivos eletrônicos e bandeiras com símbolos do Hamas” na casa de Lano. Em 2010, ela participou da Flotilha da Liberdade para Gaza, patrocinada pela ONG turca IHH, incluída por Israel em lista de organizações consideradas próximas a terroristas palestinos.
Além disso, documentos da Promotoria italiana indicam que a fundação da Infopal ocorreu na Itália, em 2006, com “o objetivo declarado de oferecer um serviço de informação sobre a situação do povo palestino”. Segundo os investigadores, o site conta com o apoio da Associação Beneficente de Solidariedade com o Povo Palestino (ABSPP), de Gênova, com a qual compartilha sede.
A ABSPP, cuja fundação é de 1994 por Hannoun, mantém sedes em Gênova, Milão e Roma. Investigações da Direção Distrital Antimáfia apontam a transferência de cerca de 7 milhões de euros a grupos terroristas por meio de triangulações financeiras e associações no exterior. Além disso, parte dos recursos foi para apoiar familiares de terroristas ou de presos.
As investigações reuniram ainda fotos, escutas telefônicas e declarações públicas de Hannoun em apoio ao Hamas. Ele se reuniu diversas vezes com Ismail Haniyeh, líder do grupo morto por Israel em julho de 2024, no Irã.
Hannoun, por sua vez, integrava a direção da Conferência da União de Comunidades e Instituições Palestinas na Europa, patrocinada pelo Palestinian Return Centre, organização com sede no Reino Unido apontada por Israel como ligada ao Hamas e à Irmandade Muçulmana. Hannoun foi sancionado em 2024 e 2025 pelo Departamento do Tesouro dos Estados Unidos.
Ligações da jornalista com o Brasil
No Brasil, Lano mantém vínculos acadêmicos e, desde abril de 2024, coordena um núcleo de estudos na Universidade Federal da Bahia. Um relatório da organização europeia Elnet afirma que, dois dias depois do ataque de 7 de outubro de 2023, Lano publicou um artigo que justificava a ação do Hamas e elogiava a resistência armada.
O site Infopal também publicou textos do brasileiro Sayid Marcos Tenório, vice-presidente do Instituto Brasil Palestina (IBRASPAL). Ele foi citado na Operação Trapiche, que frustrou atentados do Hezbollah no Brasil em 2023. Em artigo publicado em dezembro de 2023, Tenório escreveu que “a trégua de seis dias para ajuda humanitária e troca de reféns obrigou Israel a legitimar o Hamas como força beligerante”.
Segundo o pesquisador Emanuele Ottolenghi, Tenório atua em defesa do Hamas por meio do IBRASPAL e mantém proximidade com o regime iraniano. A operação Domino também identificou referências ao Hezbollah e transferências financeiras internacionais. Para especialistas citados no inquérito, os dados indicam uma convergência crescente entre Hamas, Irã e aliados, com expansão de ações para fora do Oriente Médio.