A primeira ausência de Xi na reunião das principais economias emergentes levanta questões sobre o domínio da China na aliança conflituosa
O presidente chinês, Xi Jinping, não participará da Cúpula dos BRICS desta semana no Brasil, marcando a primeira vez que o líder chinês não participa do encontro das principais economias emergentes. A decisão abrupta desencadeou especulações generalizadas sobre a dinâmica política interna da China e o enfraquecimento da coesão do próprio BRICS.
A explicação oficial da China — um “conflito de agenda” e o fato de Xi já ter se encontrado com o presidente brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva no início deste ano, segundo o South China Morning Post — foi recebida com ceticismo. O premiê Li Qiang participará da cúpula no lugar de Xi, dando continuidade a uma tendência recente de Xi reduzir suas aparições no cenário global.
“Isso não faz sentido”, disse Gordon Chang , especialista em relações EUA-China. “Há muitos outros países na cúpula dos BRICS, não apenas o Brasil. Para mim, é extremamente significativo que Xi Jinping não vá. Isso sugere turbulência interna — há sinais de que ele perdeu o controle das Forças Armadas e que rivais civis estão reafirmando o poder. Este é um sintoma disso.”
Bryan Burack, da Heritage Foundation, concorda que a ausência de Xi ressalta questões mais profundas: “É mais uma indicação de que o BRICS não será a vassalagem da China em relação ao Sul Global”. Ele observou que países como Brasil e Indonésia impuseram recentemente tarifas à China por excesso de capacidade industrial e dumping, medidas que sugerem o aumento das divergências dentro do grupo.
“A China está prejudicando ativamente todos esses países, na maior parte, talvez com algumas exceções, por meio de suas políticas comerciais malignas, dumping e excesso de capacidade.”
As tensões com a Índia e a pressão comercial global também podem ser fatores
Alguns analistas apontam o crescente atrito entre China e Índia como um fator que contribuiu para a decisão de Xi de não comparecer à cúpula.
“A China está em guerra com a Índia há décadas, essencialmente”, disse Burack. “São interesses fundamentalmente opostos. É difícil imaginar a China mudando seu comportamento no curto prazo, e isso manterá as tensões elevadas.”
Espera-se que o primeiro-ministro indiano, Narendra Modi, assuma um papel de liderança no encontro, o que pode ser outro impedimento para a presença de Xi.
Outro líder importante — o presidente russo Vladimir Putin — deve se dirigir ao grupo apenas por vídeo.
BRICS: Unidos no nome, divididos em tensões de décadas
Formado por Brasil, Rússia, Índia e China, e posteriormente integrado pela África do Sul, o BRICS foi concebido como um contrapeso não ocidental ao domínio do G7. Expandiu-se para incluir Egito, Etiópia, Irã, Emirados Árabes Unidos e, mais recentemente, Indonésia, fortalecendo sua presença econômica.
O economista Christian Briggs destacou a enorme escala do BRICS: “O BRICS agora conta com 12 membros plenos e até 23, considerando os parceiros. Juntos, eles representam mais de 60% do PIB mundial e cerca de 75% da população global. Controlam vastos recursos naturais e uma parcela crescente dos fluxos comerciais globais.”
No entanto, apesar de sua escala, o bloco permanece fragmentado ideológica e estrategicamente. “É um grupo de países que se odeiam”, disse Burack sem rodeios. “A China está prejudicando muitos deles com práticas comerciais desleais. Não há muito incentivo para uma união real.”
Ambições cambiais e divergências estratégicas
As aspirações da aliança de desafiar o dólar americano por meio de sistemas de pagamento alternativos e uma possível moeda do BRICS ganharam força na mídia — mas especialistas alertam contra superestimar essa ameaça.
“Tem havido muito alarde sobre uma moeda dos BRICS”, disse Burack. “Mas os interesses desses países são completamente divergentes. Há mais fumaça do que fogo quando se trata de um desafio monetário ao dólar.”
Chang ecoou esse ceticismo: “O único país que pode desafiar o dólar são os Estados Unidos. A fraqueza do dólar se deve ao que estamos fazendo internamente, não ao que os BRICS estão fazendo.”
Ainda assim, Briggs ofereceu um contraponto, argumentando que os membros do BRICS já estão remodelando os fluxos monetários globais.
“Eles estão se afastando do dólar e migrando para o yuan, a rúpia e o rublo digitais. A China lançou uma alternativa ao SWIFT, já adotada pelo setor bancário caribenho — trilhões de dólares estão sendo movimentados.”
O BRICS ainda é uma ameaça à influência dos EUA?
Embora sua coesão permaneça questionável, o BRICS representa um desafio de longo prazo à influência dos EUA — particularmente em regiões onde Washington recuou diplomaticamente e economicamente.
“A China preencheu o vazio deixado pelos EUA em lugares como a África”, disse Briggs. “Agora, ela controla cerca de 38% dos minerais do mundo. Enquanto isso, a economia da Rússia dobrou de tamanho, apesar das sanções, porque elas reduziram preventivamente a dependência do dólar.”
No entanto, Chang vê a Índia como um freio a qualquer inclinação agressiva antiocidental. “O BRICS tem um ‘I’ — e esse é a Índia. Modi não quer fazer parte de um bloco antiocidental. Enquanto a Índia estiver no BRICS, o resto do mundo estará seguro.”
Uma oportunidade perdida — ou uma jogada de poder calculada?
Para alguns, a ausência de Xi sinaliza instabilidade em Pequim. Para outros, o oposto: demonstra confiança no domínio da China sobre os demais membros do BRICS.
“Ele não precisa estar lá”, argumentou Briggs. “O poder de Xi lhe permite delegar. A China negocia com quase 80% do mundo atualmente. Ele está levando a agenda adiante mesmo à revelia.”
O que está claro é que o BRICS continua a evoluir — suas contradições internas são tão visíveis quanto suas ambições geopolíticas. Se a ausência de Xi marca um recuo ou uma recalibração continua sendo uma das principais questões que pairam sobre a cúpula no Brasil.