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terça-feira, 20 janeiro, 2026
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Investigação aponta uso de ‘laranjas’ em fundos do Banco Master

Por Alexandre Gomes

Segundo a PF, houve ‘aproveitamento sistemático de vulnerabilidades do mercado de capitais e do sistema de regulação e fiscalização

Autoridades identificaram indícios de movimentações financeiras simuladas, uso de intermediários e manipulação de preços de ativos em fundos ligados ao Banco Master, sob controle de Daniel Vorcaro.

Esses elementos constam em documentos do Ministério Público Federal (MPF) em São Paulo, enviados ao Supremo Tribunal Federal (STF), que apura suspeitas de irregularidades financeiras envolvendo o banco.

A segunda fase da Operação Compliance Zero, deflagrada na quarta-feira 14, usou esses materiais como base.

De acordo com a apuração, o Banco Master investiu mais de R$ 3,5 bilhões em fundos sob sua gestão, sendo R$ 1,8 bilhão destinados à compra de notas comerciais emitidas por empresas relacionadas aos sócios.

O MPF apontou “fortes indícios de estruturação financeira irregular e simulação de operações”.

Estratégias de ocultação do Banco Master

Em manifestação obtida pelo jornal O Estado de S. Paulo, o MPF relatou que o banco aplicava recursos obtidos no mercado por meio de CDBs em fundos onde figurava como único cotista. Esses fundos adquiriram notas comerciais e direitos creditórios de empresas ligadas a sócios ou pessoas próximas ao Banco Master.

Para os procuradores, houve aproveitamento de brechas no mercado de capitais e na fiscalização, movimentando ativos sem liquidez e com preços manipulados, em operações repetidas entre empresas relacionadas.

A defesa de Daniel Vorcaro comunicou que colabora com as autoridades e seguirá todas as determinações judiciais de maneira transparente.

A investigação também identificou o uso de “laranjas” para ocultar a verdadeira participação de controladores em empresas, prática já observada na primeira fase da investigação, em novembro.

Um dos episódios descritos envolve uma clínica médica, cuja receita anual é de pouco mais de R$ 450 mil, mas que emitiu R$ 361 milhões em notas comerciais sem garantias. A responsável pela empresa não possui patrimônio e recebeu auxílio emergencial durante a pandemia de covid-19.

Segundo relatório da Polícia Federal (PF) ao STF, houve “aproveitamento sistemático de vulnerabilidades do mercado de capitais e do sistema de regulação e fiscalização” com a utilização de fundos e uma rede de empresas com vínculos societários e familiares”.

A PF informou haver “indícios consistentes” de organização criminosa dedicada à gestão fraudulenta, indução ao erro de investidores, uso de informações privilegiadas, manipulação de mercado e lavagem de dinheiro. O MPF destacou o risco sistêmico ao sistema financeiro.

Quebra de sigilo e redes de transferência de recursos

Por solicitação da PF e da Procuradoria-Geral da República (PGR), o ministro Dias Toffoli, relator do caso no STF, autorizou a quebra de sigilo bancário de empresas e investigados entre 2020 e 2025, período das operações suspeitas.

Os investigadores constataram que o Master emprestava valores a empresas, que depois devolviam os recursos ao banco pela compra de CDBs.

O MPF detalhou que, de abril a maio de 2024, o Banco Master desembolsou R$ 1,45 bilhão, com retorno de R$ 1,38 bilhão via aquisição de CDBs pelos fundos Astralo 95 e Reag Growth 95, cujos títulos foram resgatados nos dias seguintes.

Um exemplo citado sugere que o Astralo 95 resgatou R$ 800 milhões e transferiu R$ 650 milhões ao fundo Termópilas, que por sua vez destinou o mesmo valor à Super Empreendimentos e Participações, empresa cujo sócio é Fabiano Zettel, cunhado de Vorcaro.

Reportagem anterior revelou que Vorcaro usou a Super para adquirir uma mansão de R$ 36 milhões em Brasília, com empréstimo oriundo do próprio banco. Em nota, a defesa de Vorcaro afirmou que a relação com a Super é comercial, envolvendo compra e venda de ativos e contratos de locação, ressaltando o vínculo familiar público.

Desdobramentos da investigação e novos alvos

As investigações começaram depois de denúncia anônima recebida pela Polícia Federal, que continha o arquivo “Informações Banco Master”.

Com isso, foi instaurado processo formal e iniciadas diligências para apurar crimes contra o Sistema Financeiro Nacional, como gestão fraudulenta e formação de rede empresarial para práticas ilícitas.

O empresário Nelson Tanure foi alvo de busca e apreensão na quarta-feira 14, sendo apontado como possível “sócio oculto” do Master e beneficiário da Lormont Participações, que detinha R$ 73,7 milhões em CDBs, representando 97% de uma das carteiras analisadas.

A defesa declarou que Tanure não possui ligação societária com o banco e que só foi cliente, nas mesmas condições que outros investidores.

O advogado de Tanure informou que a única medida tomada contra ele na segunda fase da operação foi a apreensão do celular.

“O empresário tem certeza de que no decorrer das apurações promovidas pelo STF restará definitivamente demonstrada a inexistência de qualquer pretensa prática ilícita oriunda dessa relação”, afirmou a defesa de Tanure ao jornal Folha de S.Paulo.

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