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Indústria brasileira desacelera e CNI prevê ‘âncora pesada’ até 2027

Por Alexandre Gomes

Com queda de 1,2% na produção em dezembro, a indústria fecha 2025 com perda de fôlego; analistas atribuem desempenho ao impacto da Selic, enquanto CNI vê também pressão dos produtos importados no setor

A indústria brasileira está desacelerando, e analistas e economistas vêem nos dados um reflexo da política de juros altos para conter a inflação, queda da demanda, e maior competição por produtos importados. Com a perspectiva de juros ainda restritivos em 2026, o setor avalia que a recuperação virá a passos lentos, provavelmente após 2027, segundo a Confederação Nacional das Indústrias (CNI).

Os dados da Pesquisa Industrial Mensal (PIM), divulgada hoje (3) pelo IBGE, apontam que, de novembro para dezembro, a produção industrial recuou 1,2%. No acumulado de 2025, houve avanço de 0,6% – bem abaixo do acumulado de 2024, que foi de 3,1%.

Para André Macedo, gerente da pesquisa, a indústria apresentou uma “clara perda de ritmo” ao longo de 2025. Ele destaca que o setor industrial passou de uma expansão de 1,2% nos seis primeiros meses para uma variação nula no segundo semestre. “Esse menor dinamismo guarda uma relação importante com a política monetária mais restritiva, especialmente marcada pelo aumento na taxa de juros, o que impacta diretamente das decisões de investimento por parte das empresas e de consumo por parte das famílias”, afirma.

Matheus Pizzani, economista do PicPay, também destaca que o nível de demanda “ainda insuficiente” tem afetado a produção industrial “e a expectativa futura dos produtores”.

Para Leonardo Costa, economista do ASA, o dado de dezembro reforça um quadro de desaceleração mais clara da indústria, especialmente nos segmentos mais cíclicos e sensíveis ao crédito, como bens de capital e duráveis.

“Apesar de alguma resiliência pontual em setores ligados a commodities e energia, o fechamento do ano sugere perda de tração da atividade industrial, consistente com um ambiente financeiro mais restritivo e demanda mais moderada”, afirma.

‘Âncora pesada’

O cenário à frente será de uma lenta recuperação, na avaliação de Marcelo Azevedo, gerente de Análise Econômica da CNI.

Ele afirma que os juros altos afetam a demanda por bens industriais, a situação financeira da própria indústria, as decisões de investimento e a competitividade. “A demanda por bens industriais, que crescia fortemente no ano anterior, apresentou um resultado bem mais modesto, levando a uma redução no ritmo de produção, investimento e contratações”, diz.

Azevedo destaca que o cenário industrial brasileiro também foi impactado pela alta de importação, reflexo da política tarifária de Donald Trump. Isso aconteceu porque, como o mercado americano se fechou, os exportadores passaram a procurar outros países consumidores, e encontraram parte do que precisavam no Brasil.

Na avaliação dele, a recuperação do setor não virá ao longo de 2026, mesmo com a perspectiva de início do ciclo de corte de juros. Ele avalia que os cortes vão manter os juros ainda bastante restritivos – a projeção do mercado é de que a Selic, atualmente em 15%, chegue a 12,50% ao fim deste ano. Para Azevedo, essa redução “tímida” fará com que se leve tempo até que seus efeitos sejam sentidos na economia.

“Nem em 2027 a indústria se recupera. Vai levar mais tempo. A indústria ainda estará arrastando uma ‘âncora pesada’”, avalia Azevedo.

Projeções

Para Pizzani, do PicPay, a expectativa é de que a indústria avance 1,8% em 2026. Ele atribui o percentual à projeção do cenário de crescimento que irá, gradualmente, se superando ao longo do ano, com a queda da inflação e da taxa de juros.

Isso irá favorecer ainda o consumo de bens não duráveis mais sensíveis ao nível de preço e renda disponível das famílias, avalia o economista.

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