Fundo GSR é administrado pela corretora Trustee, de Maurício Quadrado, e recebeu dinheiro de fundo da Reag investigado pela PF; procurados, a Trustee afirma ‘atuar com diligência’, Banco Master diz não ter relação com o fundo e Reag não se manifestou
Um fundo administrado pela corretora Trustee, que pertence a Maurício Quadrado, ex-sócio do Banco Master, chama a atenção por ter registrado uma dívida de R$ 122 milhões com advogados e outra de R$ 10,7 milhões com consultoria sem ter apresentado documentos que comprovem os serviços prestados.
Procurada, a Trustee diz ter cobrado as informações dos assessores legais do fundo, profissionais responsáveis por enviar essa documentação. Questionada pela reportagem sobre quem são esses assessores legais, a empresa não respondeu até a publicação dessa reportagem. A defesa de Daniel Vorcaro, presidente do Banco Master, por sua vez, aponta não ter relação com o fundo, enquanto a Reag não se manifestou.
“A defesa de Daniel Vorcaro informa que o Banco Master não é gestor ou administrador do fundo GSR FIDC-NP, nem participa de suas decisões de investimento, políticas de gastos ou contratações de prestadores de serviços”, diz a defesa.
Chamado “GSR”, o fundo da Trustee tinha até setembro do ano passado, dado mais recente, um patrimônio de R$ 3 bilhões e apenas um cotista: um outro fundo de investimento chamado “Astralo 95”, segundo levantamento feito por Einar Rivero, sócio-fundador da consultoria Elos Ayta.
O Astralo é administrado pela Reag Trust e investigado pela Polícia Federal por fazer parte de uma cadeia de fundos supostamente usada para transações fraudulentas. Na prática, todo o dinheiro do GSR vem do fundo Astralo. A Trustee, assim como a Reag, também foi alvo da Operação Carbono Oculto, que apurava utilização de fundos por organizações criminosas. Procurada, a Reag não se pronunciou até a publicação dessa reportagem.
Como mostrou o Estadão/Broadcast, o Astralo, ao lado de outros três fundos, também foi um dos veículos da Reag que transferiram recursos para o Master quando o banco enfrentava problemas de liquidez. Os aportes somaram mais de R$ 1,2 bilhão por meio de aplicações em Certificados De Depósitos Bancários (CDBs) do Master. Procurado, o Master também não se manifestou.
Já Maurício Quadrado, dono da Trustee, tem um longo histórico no mercado financeiro. Foi sócio da corretora Planner entre 2007 e 2020, quando saiu e fundou a Trustee, inicialmente conhecida como “Planner Trustee”. Pouco depois se juntou ao banqueiro Daniel Vorcaro no Master, onde permaneceu como sócio até meados de 2024.
Em novembro do ano passado, o Master foi liquidado pelo Banco Central em meio a uma “grave crise de liquidez” e Vorcaro passou a ser investigado por gestão fraudulenta e venda de carteiras de crédito supostamente falsas ao Banco de Brasília (BRB).
Sem comprovação dos gastos
Na demonstração financeira de 2024, última disponível, os auditores do GSR não conseguiram acesso à documentação necessária para comprovar a origem e destino dos gastos com advogados e consultores. Por isso, não puderam atestar a veracidade das informações financeiras fornecidas pelo fundo.
“Não nos foram fornecidas as documentações sobre as referidas despesas, não sendo possível obter evidências de auditoria apropriadas e suficientes para concluirmos sobre a adequação dessas despesas”, disse a RSM Auditores, em relatório incluso nas demonstrações financeiras.
André Camara, sócio da área societária do Benício Advogados, aponta que a falta de documentação, em si, já emite um sinal de alerta, independentemente da magnitude da cifra em questão. O motivo é que, sem comprovação documental, esse capital pode acabar sendo utilizado para outro fim.
“A inexistência ou indisponibilidade de documentos que justifiquem despesas de um fundo configura falha grave de governança”, afirma. “Além disso, a classificação genérica da despesa, sem detalhamento sobre escritórios contratados, natureza dos serviços, processos vinculados ou contratos firmados, não atende aos padrões regulatórios de informação adequada aos cotistas.”
Além dos valores em aberto com advogados e consultoria, o fundo também registrou na documentação financeira uma aquisição de R$ 792,3 milhões em direitos creditórios – como ações judiciais e precatórios -, mas não mensurou qual seria o valor justo desses ativos. Ou seja, quanto o GSR efetivamente ganharia com essa carteira de crédito, como determina a Comissão de Valores Mobiliários (CVM).
Manifestação da Trustee
“Ao longo do processo de auditoria das Demonstrações Financeiras de 2024, a Trustee DTVM, na qualidade de administradora do fundo de direito creditório GSR, adotou diligência e cobrança junto ao responsável pelo fornecimento das informações e documentos necessários, com o objetivo de viabilizar a adequada validação dos registros contábeis e a emissão do relatório de auditoria. Porém ainda não recebeu as informações consideradas suficientes pelo auditor independente.
Diante disso, e com o objetivo de cumprir tempestivamente o prazo de divulgação e reporte do Fundo, a Trustee deliberou pela publicação das Demonstrações Financeiras, ainda que acompanhadas de ressalvas do auditor independente.
Conforme evidenciado nas respectivas Demonstrações Financeiras, os ativos do Fundo encontram-se avaliados pelo custo de aquisição, no montante de R$ 792 milhões, referentes a Direitos Creditórios compostos por Ações Judiciais e Precatórios, representando aproximadamente 92% e 8% do patrimônio líquido do Fundo, respectivamente.
A Trustee informa, por fim, que segue atuando de forma diligente no acompanhamento das obrigações regulatórias e operacionais do Fundo, inclusive com tratativas em curso para a obtenção das informações necessárias para reemissão das Demonstrações Financeiras, caso aplicável, com o objetivo de endereçar os pontos indicados pela auditoria.”