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segunda-feira, 2 fevereiro, 2026
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Brasileiro continuará no saldo devedor em 2026, com juro alto e menos emprego

Por Alexandre Gomes

Mesmo com recordes de renda em 2025, juro real elevado e desaceleração econômica devem manter o saldo devedor das famílias no próximo ano.

Nem o pleno emprego nem a renda recorde foram suficientes para aliviar o bolso do brasileiro, que segue pressionado por dívidas e atrasos. O horizonte para 2026 indica que o fôlego financeiro ainda levará tempo para se recuperar.

Especialistas ouvidos pelo InfoMoney afirmam que, apesar de haver uma perspectiva de diminuição da taxa básica de juros, a Selic, a partir de março, a projeção é de que os juros vão ficar acima de dois dígitos ao fim do ano. O mercado projeta algo em torno de 12%, o que faz com que o juro real (quando se exclui a inflação) permaneça elevado.

Esses juros altos devem continuar freando a atividade econômica. Isso significa menos emprego e menor possibilidade de aumentar a renda. Se, em 2025, atingimos recordes atrás de recordes com desemprego nas mínimas históricas e renda no pico máximo, o esperado para 2026 é uma estabilização nos indicadores, ou até um leve recuo.

Para Silvia Matos, coordenadora do Boletim Macro do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getúlio Vargas (FGV Ibre), o endividamento está em um patamar histórico, e o crédito como um todo não deve crescer, o que deve contribuir para a desaceleração do crescimento econômico.

“Mesmo com a queda de juros no curto prazo, o cenário de crédito não deve mudar significativamente, pois o custo do crédito depende não apenas da Selic, mas também das perspectivas econômicas”, afirma.

Mais dívidas e mais atrasos

Dados do Banco Central divulgados nesta quinta-feira (29) mostram que, ao fim de 2025, o endividamento das pessoas físicas chegou a 49,77% , quando em janeiro era de 48,63% – aumento de 1,14 ponto porcentual.

A inadimplência também subiu, de 3,78% no início do ano, para 5,05% em dezembro, avanço de 1,27 p.p..

O comprometimento da renda das famílias com dívidas está em 29,28%, contra 27,57% no início do ano passado. Excluindo créditos habitacionais, o brasileiro gasta 27% da sua renda para pagar boletos, quando em janeiro era 25%.

A dificuldade em pagar

Os dados parecem contraditórios. Se, por um lado, há melhora no emprego e renda, por que, afinal, os brasileiros não estão conseguindo diminuir o endividamento, a inadimplência e o comprometimento das renda?

Parte da resposta está no rolamento da dívida, no efeito dos juros compostos e em um cenário amplo que remete aos anos de pandemia e à flexibilização bancária que trouxe maior acesso ao crédito.

Flávio Ataliba, pesquisador do FGV Ibre, destaca que estamos a três anos do fim da pandemia de Covid-19, época em que muitos brasileiros tiveram que consumir suas reservas e entrar em dívidas que estão rolando até hoje. Ele também cita o período em que as fintechs abraçaram a população desbancarizada, que não tinha acesso ao cartão de crédito e tem pouco acesso à educação financeira.

“O aumento do endividamento vem para sustentar um consumo que é crescente pela facilidade de liquidez [acesso ao crédito], mas também para pagar dívidas do passado. Mas estamos vendo que não está sendo possível pagar essas dívidas, tanto é que a inadimplência está aumentando”, afirma.

Em um cenário em que as famílias estão sem reserva de emergência, qualquer acontecimento que demande um pagamento extra – como um conserto de carro, da casa, um adoecimento, entre outros – coloca o brasileiro em uma situação vulnerável. A saída de muitos é entrar no crédito rotativo do cartão de crédito, quando se paga apenas a parcela mínima sem conhecer o peso dos juros compostos.

O crédito rotativo do cartão de crédito aumentou 8,6% ao longo de 2025. O empréstimo pessoal avançou 14,7% e o cheque especial, 10,9%. A linha de financiamento do consignado privado para trabalhadores e empreendedores teve um expressivo crescimento de 183,6% – modalidade em que o trabalhador tem a parcela da dívida descontada diretamente da folha de pagamento.

Juros encarecem dívidas

Enquanto a taxa básica de juro está em 15%, o juro médio pago pelo cidadão chegou a 60% em dezembro de 2025, quando em janeiro era de 54,3% – um aumento de 7% no ano.

Considerando apenas o cartão de crédito, a maior taxa de juro ao ano chega a mais de 1.000%, enquanto a média entre as instituições financeiras do país é de 476%, segundo dados do Banco Central referentes ao período de 9 a 15 de janeiro.

Cláudio Hamilton Matos dos Santos, técnico de planejamento e pesquisa do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), explica que os financiamentos vinculados a taxas de correção, como a TR, podem ser afetados pelo aumento dos juros – não porque a parcela vai ficar mais cara, mas sim porque demora mais para o brasileiro abater aquela dívida.

Isso significa que, mesmo que as pessoas mantenham dívidas proporcionais à renda, a parcela de recursos que elas precisam destinar para pagar essa dívida (chamada de serviço da dívida) aumentou.

Assim, o cenário para 2026 é de desafios com juros reais elevados e endividamento e inadimplência persistentes. Para Ataliba, embora o mercado de trabalho esteja robusto, a desaceleração econômica e a falta de educação financeira podem agravar a situação.

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