Entre janeiro e abril, o Brasil enfrentou uma significativa fuga de capitais estrangeiros através do setor financeiro, resultando em um déficit líquido de US$ 21,08 bilhões durante os primeiros quatro meses do ano, de acordo com informações do Banco Central.
Esse período registrou o segundo pior desempenho financeiro do país desde o início dos registros do BC em 1982, ficando atrás apenas de 2020. Nos primeiros quatro meses daquele ano, marcados pelo surgimento da pandemia de Covid-19, houve uma saída líquida de US$ 32,52 bilhões através do setor financeiro.
O fluxo financeiro está associado às entradas e saídas de dólares no mercado de capitais, englobando operações como investimentos em títulos, remessas de lucros e dividendos para o exterior, e investimentos estrangeiros diretos.
Cristiane Quartaroli, economista do Ouribank, observa que o fluxo financeiro tem diminuído desde 2022, ao analisar os dados acumulados ao longo de 12 meses. Neste ano, a saída de dólares através do setor financeiro foi impulsionada pelo desinvestimento na Bolsa brasileira.
“Tivemos uma saída de US$ 7 bilhões em ações ao longo de 2024. Isso está intimamente ligado, e é um dos motivos pelos quais nossa taxa de câmbio também está sob pressão”, diz ela.
O valor mencionado por Quartaroli representa um terço do déficit líquido registrado nos primeiros quatro meses do ano através do setor financeiro.
“Houve volatilidade ao longo do ano, mas se olharmos o Ibovespa [principal índice da bolsa brasileira] desde o início do ano, podemos observar uma queda de quase 5%”, acrescenta.
Segundo a economista, o fluxo financeiro reflete a decisão de uma parte do mercado de transferir seus investimentos para economias consideradas mais “seguras”, como os Estados Unidos, onde há maior estabilidade e as taxas de juros permanecem atrativas.
Em maio, o Federal Reserve (Fed), o banco central dos Estados Unidos, optou por manter as taxas de juros entre 5,25% e 5,5%, o nível mais alto em 23 anos. Além disso, indicou que as taxas devem permanecer elevadas por um período prolongado, enquanto o país enfrenta uma inflação persistente.
A política monetária americana tem repercussões significativas nos mercados financeiros globais, especialmente em economias emergentes como a brasileira.
No Brasil, o Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central vem reduzindo as taxas de juros desde agosto do ano anterior e, na última quarta-feira (8), reduziu a taxa básica (Selic) para 10,50% ao ano após um corte de 0,25 ponto percentual em uma decisão dividida.
“Os Estados Unidos têm taxas de juros elevadas. São mais baixas do que as nossas [no Brasil]. No entanto, eles têm uma economia menos volátil, então o dinheiro sai daqui e vai para lá”, observa Quartaroli.
A economista destaca que questões domésticas, como a política fiscal, também aumentam a aversão ao risco por parte dos investidores estrangeiros. Nesse ambiente de grande incerteza, ela observa os investidores retirando seus recursos da bolsa e migrando para fundos de investimento e renda fixa em busca de maior segurança.
Em abril, o governo de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) propôs uma revisão na trajetória das contas públicas, com uma meta fiscal zero também para 2025, em vez dos 0,5% do PIB (Produto Interno Bruto).
No dia seguinte ao anúncio, o dólar chegou a atingir R$ 5,281, o maior valor em mais de um ano, refletindo uma piora na percepção dos economistas. Além disso, a expectativa de um adiamento no corte de juros nos EUA para o segundo semestre e as tensões geopolíticas no Oriente Médio também pressionavam o dólar.
Naquela ocasião, o Banco Central não interveio no mercado para controlar a volatilidade cambial.
De acordo com o presidente da instituição, Roberto Campos Neto, o Banco Central não atua quando os agentes econômicos recalculam o risco de investir no Brasil, sendo a intervenção reservada para casos de disfunção no mercado, escassez de liquidez ou mal-entendidos pelos investidores.
“Não reagimos à recalibragem do risco de investir no Brasil. Reagir a isso é muito perigoso porque há muitas maneiras diferentes de se proteger contra o risco no Brasil”, afirmou.
“Nós não reagimos exageradamente à mudança no câmbio, porque isso faria com que as taxas de juros de longo prazo subissem, já que as pessoas buscariam diferentes formas de se proteger”, acrescentou.
Nesta quarta-feira (15), Campos Neto voltou a alertar para a piora no prêmio de risco, comentando sobre a deterioração do cenário doméstico nas últimas semanas, o que levou uma parte do Copom a defender uma desaceleração no corte de juros, decisão que acabou sendo mantida.